sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O mais belo de todos.

Ele era belo.
Não tão belo a ponto de espantar outros belos. Tampouco de fazer outros belos por ele se apaixonar. Apenas belo.

Sem saber a verdade sobre si mesmo, vivia tão bem, vivia tão feliz...
Tudo era belo.
Não se decepcionava consigo próprio, pois nada esperava de si.
Não recebia correções, pois não se sabia humano.
Ele era belo. Apenas belo.

Sem nostalgia: não tinha saudades de nada.
 O momento era sempre o agora.
O minuto presente, para ele: apenas belo.

O empíreo: seu limite, (sem limites)...
Para ele, o centro era o fogo,
e o fogo era belo.
Talvez a dor do efêmero não o atingisse.
Talvez não tivesse a ciência do tempo que transforma.
O mundo era belo.
 Ele era belo.
Logo, o mundo era ele.

Tantos se apaixonaram por ele...
mas ele, como que à espera da princesa encantada, não deixou-se abater pelo flagelo do amor terreno.
Foi então que, inesperadamente,  o amor o arrebatou.

Sem fim o amor chegou como quem
 chega sem aviso.
Apenas chegou.

Foi num dia de sol sem vento
o início de seu fim: o belo se apaixonou.

Ao abaixar-se para pegar uma pedra ao fundo do lago,  na beira rasa,
Narciso viu sua face no espelho d'água.
O belo mais lindo que já vira,
mais lindo que já existira.

Sem saber ser sua própria face a vista,
 enamorou-se como nunca, e jurou amor eterno, como o tempo, como a brisa.

Jurou amor à própria face,
 sem saber o mal que a si fazia.

Ali sentou-se, adorou-se e ficou.
Sem necessidades terrenas.
Apenas ficou.
Contemplou o belo e assim o adorou.

O tempo veio.
 Narciso não percebeu.
A fome e a sede eram grandes,
 mas não maiores que a sua adoração pelo belo.

Mas o tempo, que nada perdoa,
varreu como vento a mandala de areia de Narciso.

Pereceu.
 Feneceu.
 Ossos e pó se tornou.

Juventude e beleza esvaíram-se.
Consumiram-se na beleza da paixão.

Narciso morreu encantado por si.
 Enlevado de ternura por sua beleza.
Apaixonado, ignorou a verdade
 que as rugas da face tentaram dizer.

Tomado de amor não quis saber o que o estômago, esfomeado, sussurrava.

Ignorou o som da aurora.
 Esnobou a face da lua.
Sabia-se eterno, firme, seguro.

Morreu na inconstância do belo
sem saber que,
na realidade, era alguém comum.
(ROCIA, Eloisa)

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